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História da Lulubinha: Parte 3 – “A Mamãe vai ter que ser forte”

Recordando: Estou contando em partes a história da Luísa. Já publiquei a Parte 1 – A Descoberta Inusitada; e a Parte 2 – Chá Revelação . Vale a pena ler ou reler para relembrar.

Hoje eu venho contar para vocês, a terceira parte. Nessa terceira parte, eu conto sobre como foi o primeiro dia em que soube que poderia haver algum problema com a Luísa.

Parte 3: “A Mamãe vai ter que ser forte”

Quem já teve um bebê sabe que os exames mais temidos pelos pais durante a gestação são as ultrassonografias:

– Translucência Nucal (TN), feita mais ou menos com 12 semanas de gravidez, e

– Morfológica, feita com cerca de 22-24 semanas de gravidez.

Fui fazer esses dois exames relativamente calma. Mãe de segunda viagem é assim. Mas no fundo sempre dá um certo medo.

Medo das coisas que não podemos controlar. Medo do inesperado. Medo de tudo. Pois amamos tanto aquele serzinho sendo gerado na nossa barriga, que não queremos que nada de ruim lhe aconteça.

E nada de fato aconteceu. Nem na TN, e nem na temida morfológica. Os exames confirmaram que era nossa sonhada menina. E era saudável. E tinha cinco dedos em cada mão e cada pé. E tinha os órgãos e movimentos intrauterinos perfeitos. Nossa bonequinha estava sendo belamente preparada no forninho, e estava tudo bem. Ufa ! Que Alívio !

E a vida seguiu normalmente. Corrida como sempre. Trabalho, muito trabalho. Assuntos do meu filho e da minha casa, arrumação do quartinho da bebezinha que estava prestes a chegar, organização do chá de bebê e tudo mais.

Assim foi até o dia 6 de agosto de 2016, quando fui fazer a ultra de 28 semanas.

André, meu esposo e pai da Lulubinha, estava presente. Dessa vez, até o Rafael estava (na época com três anos), já que depois íamos direto para uma festinha de aniversário.

Eu estava bem calma e serena, já que as mais temidas ultras já tinham sido feitas e estavam ótimas. Mas foi só o exame começar, eu olhar para cara do médico e não gostei. Não gostei da sua expressão facial. Não estava boa. Ele, sempre brincalhão e simpático, sempre conversando assuntos aleatórios com André, e brincado com Rafael, agora estava sério e calado.

Senti medo. Muito medo. Ainda assim, tentei ficar calma e não encher o médico de perguntas para não atrapalhar o exame. Estava indo bem nessa estratégia, até que ele começou a plotar uns gráficos na tela. Saiu a imagem da Luísa e entraram uns gráficos. Nesse momento, tive a certeza que alguma coisa não estava bem.

– “O que houve?” – perguntei.

– ; “Não sei ainda – ele disse . Estou confirmando algumas datas para ter certeza”.

Silêncio. Silêncio total na sala de exames. Só escuto a música da Peppa Pig  do vídeo no celular que o Rafael estava assistindo.

Aperto ainda mais forte a mão do André.

– “Bom, ela está pequena”. – disse o médico

Eu:- “Pequena? Como assim pequena ?”.

– “As medidas de peso e crescimento estão todas muito abaixo do percentil esperado. Melhor você se vestir para conversamos” – ele disse.

Chorei. Era o primeiro choro de muitos ainda por vir. Senti Incerteza e uma agonizante aflição.

Sai do banheiro, e perguntei já aos prantos:

– “O que isso quer dizer?”

E ele disse a frase mais certa de todas que já ouvi na minha vida:

“A mamãe vai ter que ser forte” .- disse o médico, ao mesmo tempo que me estendia um lenço de papel para secar as lágrimas.

Perguntei : – “ Ela vai ter nanismo?” – foi a primeira coisa que passou na minha cabeça como consequência de “estar pequena”.

Ele: – “Não é esse o caso, porque as medidas estão pequenas, porém  proporcionais.”.

Eu: – “Então quer dizer o quê?”

Ele:-  “Como não tem nada errado com a sua saúde ou na sua placenta, ou seja, os nutrientes estão chegando normalmente até a bebê, deve ser alguma coisa dela”.

Eu:- “Como assim alguma coisa dela? “ – “Não entendi” .

Ele:- “Não sei, podem ser muitas coisas… ” – dando uma resposta vaga e com uma cara péssima.

Eu:- “Por exemplo, o que então??? Me dê um exemplo, por favor ! – já quase implorando.

Ele: – “Alguma característica dela… .” – ainda num tom muito vago.

Eu: – “Você quer dizer….. Característica ….Genética??? – nesse ponto, eu já tremia.

Ele: – Sim…. talvez…

Não falei, mas pensava:

– “ Moço, o que o senhor está dizendo ? Por favor, me diz que não escutei isso ? Por favor, me dê todas as doenças do mundo ! Diz que o problema é comigo, por favor, mas não com a minha filha !. Prefiro eu ter a doença do que ela, moço….Não faça isso…”

Pensava isso o tempo todo, como se ele, o médico, eu, ou qualquer outra pessoa pudesse mudar o que Deus determinou.

Nesse ponto, até o Rafael já chorava junto, perguntando: – “Papai, porque a mamãe está chorando? “.

O André que até então estava mudo, felizmente se ateve a acalmar o Rafael: – “A mamãe ficou preocupada, vamos ver o desenho no celular”.

Como explicar essa dor do desconhecido para uma criança de três anos? Não dá, portanto pulamos essa parte.

E eu voltei para o médico e perguntei:

– “Como posso saber o que é ? ou se é de fato algum problema?

Ele : – “ Tem alguns exames que dá pra fazer ainda na gestação, tem que conversar com a sua obstetra”.

Não me contentei com isso. Queria saber naquela hora. Era urgente.

-: “Qual exame ? Você já pode fazer o pedido para adiantar ? – solicitei.

Enquanto eu falava com ele , meu corpo todo tremia, eu secava as lágrimas, e tentava lidar com uma mistura de sentimentos ruins. Sai de lá com um pedido de exame chamado NIPT (do qual nunca tinha ouvido falar) nas mãos, e um coração despedaçado.

Cogitei de não ir na festinha de aniversário… Mas Rafael chorou aos prantos ao escutar sobre a possibilidade de não ir. Ele ama festinha de aniversário. Então eu fui.

Fui só por ele e pela aniversariante. Porque eu estava fora de do meu corpo. Estava toda despedaçada por dentro. Minha alma estava doendo demais. Era uma dor que chegava a ser física. Um aperto no peito, uma sensação de sufocamento.

Respirei fundo, coloquei os óculos escuros, e decidi mesmo assim levar o Rafael na festinha. Acho, que naquele momento, eu já tinha uma percepção muito no fundo do meu inconsciente de que a vida do Rafael teria que continuar normalmente,  apesar dos pesares….

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A alegria que vem das coisas que não sabíamos

Quando eu li o laudo: “atraso importante do crescimento intrauterino”, meu coração gelou. A palavra “importante” soava como se estivesse grifada com marca-texto amarelo daqueles que quase gritam.

Eu sabia que meu bebê estava crescendo abaixo do esperado no final da gestação. E, portanto havia alguma possibilidade dela ter alguma deficiência, ou necessidade especial.

Eu estava aterrorizada. Em pânico. Achava que minha vida ia acabar.

Eu sabia que no mínimo, minha vida mudaria para sempre.

Só não tinha como saber de que forma.

Eu não tinha como saber que quando eu finalmente tivesse um diagnóstico, minha vida não seria destruída. Não seria o fim do mundo. Mas sim, a abertura de um novo mundo que poucos têm a chance de conhecer. Um novo mundo com dimensões de amor antes inimagináveis.

Eu não tinha como saber que estava gerando minha Lulubinha, que gosta de dormir segurando a minha mão. Que adora um carinho. Que fala a língua do “agguum” mais fofa e doce. Que tem um risinho tímido e amoroso, guardado só para os melhores momentos. Que é pequenina do tamanho de um botão, mas que tem uma energia interior gigantesca que reluz até o infinito. Que brinca de rolar até cansar. Que empina o bumbum para alto querendo engatinhar. Enfim, um ser humano como qualquer outro. Encantador e único. Com limitações e habilidades somente suas.

Eu não teria como saber que eu, meu esposo, minha família, seriamos tão fortes, corajosos e acima de tudo: FELIZES.

Eu não teria como saber que, sim, às vezes estamos cansados, mas que na maior parte do tempo, estamos sorrindo. Sorrindo de alguma gracinha nova da Lulubinha, de gratidão do amor que o Rafa têm por ela, ou qualquer outra coisa. Como agora, por exemplo, com o Rafa penteando o cabelinho dela, fazendo um “arrepiado” gigante e todos rindo até doer barriga.

Simples assim. A vida é simples. Somos nós que teimamos em torná-la complicada.

Eu não tinha como saber que não seria sofrido para sempre. Mas que sim, um dia eu seria extremamente grata por ter recebido a benção de ter tido a Lulubinha para me ensinar um novo viver. Um novo viver muito mais florido e colorido.

Eu realmente não tinha como saber.

E sei que vou aprender ainda muito mais. O ciclo da vida há de continuar: Viver, acertar, errar, aprender, aceitar, se surpreender, e ser feliz. Ser feliz AGORA, no tempo presente, pois nosso tempo aqui é curto.

Todas essas coisas que eu não tinha como saber antes, tornaram-se enormes fontes de alegria.

Eureka* : Serendipity ** !

Você pode pesquisar a definição clássica de Serendipity** no google ou ver aqui em no final do post.

De qualquer forma, compartilho com você o que é Serendipity  (ou Serendipidade, em português, se preferir),  nas minhas palavras e no meu viver:

Serendipidade é a alegria que vem das coisas que nem sequer imaginávamos. Das coisas que, antes, não tínhamos como saber. Essa é a alegria mais genuína que existe.

Obrigada, minha Lulubinha, meu amor, por ter me escolhido para ser sua mãe. E por ter me mostrado a enorme alegria que emana das coisas que antes eu não tinha como saber. Ter um filho especial é serendipidade pura.

Se algum dia, algo não sair como você imaginava ou sonhava , acredite : Serendipity !

Algo ainda melhor estará por vir. Tudo tem um propósito, nada é por acaso. Uma grande alegria ainda surgirá do inesperado. Basta ter serenidade para esperar… e acima de tudo: ter olhos sábios para poder saber enxergar onde está essa tal alegria.

Desejo do fundo do meu coração, que sua vida também seja cheia de Serendipity !

Um grande beijo, Daniela.

 * Eureka é uma interjeição que significa “encontrei” ou “descobri”, exclamação que ficou famosa mundialmente por Arquimedes de Siracusa. É normalmente pronunciada por alguém que acaba de encontrar a solução para um problema difícil. Fonte: Wikipedia.

**Serendipity é uma palavra em inglês que significa uma feliz descoberta ao acaso, ou a sorte de encontrar algo precioso onde não estávamos procurando. O termo serendipity foi criado no século XVI pelo escritor inglês Horace Walpole. Fonte: https://www.significados.com.br/serendipity/