Por que esse nome?

Para a maioria de nós, quando recebemos a notícia de que vamos ter um bebê, imediatamente nossa mente viaja para algum lugar muito bonito. Sonhamos com uma linda criança, correndo, brincando, sorrindo, falando “mamãe” e “papai”, aprendendo a andar, comer, se vestir, fazendo amiguinhos, indo para escola. Ou seja, geralmente sonhamos com uma mini versão (projetada) de nós mesmas, com uma vida que a sociedade chamaria de “normal”.

Durante a gestação da Luísa, eu planejei tudo, colocando muito amor em cada detalhe. Fiz lista de enxoval, pensei em cada roupinha, na bolsa da maternidade, decorei o quartinho do jeito que sonhei. Fiz chá revelação e ensaio fotográfico de gestante. Postei nas redes sociais e espalhei para o mundo a minha alegria.

Imaginei cada detalhe de como seria o dia do parto, quando finalmente poderia ver o seu rostinho, pegar no colo pela primeira vez, dar um cheiro, um aconchego, dar de mamar. Levar pra casa logo e colocar no bercinho.

Comprei plaquinha para colocar na porta da maternidade e lembrancinhas para quem fosse visitar.

Nossa bebê estava chegando, e ela era um sonho lindo de viver. Estávamos completamente apaixonados por ela.

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Porém, de repente, do nada, “ooopssss….” , veio um “tsunami” pela frente.

Um “tsunami” de exames e jargões médicos que eu nunca tinha ouvido falar, indicando que algo estava errado. Algo estava errado com a nossa tão sonhada bebezinha. Um grande “tapa na cara”. Fomos derrubados no chão. Doía tudo por dentro. A dor da alma era tão grande que ela chegava a ser física. Um aperto no peito. Eu costumava dizer: “parece que tem uma tonelada de cimento em cima de mim, me apertando com força”. Faltava o ar para respirar. Sufocada. Era essa a sensação.

Como descobri no final da gravidez que algo estava errado (porém sem saber o quê), eu só torcia para acharem qualquer doença em mim, na minha placenta, na minha pressão arterial,  ou “whatever”, mas não na minha neném. “Doutor, por favor, o que está acontecendo ? Diz que a doença é comigo, por favor. Me dê todas as doenças do mundo, mas não…., minha bebê não, por favor…..

Cancelei muitos sonhos que um dia eu tive. 

Eu cancelei o chá de fraldas. Já tinha contratado buffet, enviado convitinho, alugado salão e comprado todos os enfeites. Que tristeza ver aqueles pacotinhos todos chegando em casa, com coisas lindas de morrer, mas que não seriam mais usadas.

Eu cancelei as ultrosonografias com musiqinha de fundo, coraçõezinhos fofos , e vídeos gravados em CDs de capinhas fofas em tons pastéis.

“A senhora vai querer gravar o CD com vídeo?

“Não, querida, muito obrigada. Na verdade, só quero saber se minha filha ainda está viva, se ela engordou pelo menos 10 míseras graminhas depois de eu me encher de sustagem e ganhar uns “30 quilos” em cada coxa. Além , é claro, de verificar se dessa vez vão finalmente achar algum defeito no ultrassom 4D dela. Quem sabe um pé torto só ? Não ia ser tão ruim, você não acha?”.

Claro que eu não falava nada disso para a pobre mulher da recepção. Mas pensava exatamente isso. Toda vez. De quinze em quinze dias. Do fatídico 6 de agosto de 2016, até um dia antes da Luísa nascer. (e nada descobriam. Nadica de nada, além do fato de ela estar muito, muito, pequena).

Eu cancelei visitas a maternidade. Eu olhava com tristeza para aquelas lembrancinhas que mandei fazer com tanto carinho e que talvez não fossem entregues. Afinal de contas, visitar para quê? Ninguém pode ver o bebê na UTI. Só os pais. Nem por vidro, nem pela frestinha da porta. Nem escondido. E mesmo se pudesse ver: porque cargas d´ água vão querer ver minha filhinha sofrendo e lutando para sobreviver?

“- Mas podem querer vir visitar você, ué…dar um beijo…- disse minha mãe .

– “Não obrigada”, eu pensei comigo mesma. “Depois que eu ver que minha filha está viva, e que não é um “monstro”, eu só vou querer dormir e chorar”. (Mal sabia eu que na verdade não teria tempo para isso, já que tinha que ordenhar meu proprio leite 4x ao dia, visitar a bebê na UTI, conversar com os médicos,  tentar comer, e lidar com todos os sentimentos) . Não falei nada disso e me limitei a dizer a minha mãe:

“Não, mãe, por favor, diga a todos que não quero visitas na maternidade, e peça por favor que compreendam meu momento de dor e minha decisão”.

Eu cancelei (fui obrigada a) cancelar o sonho da alta hospitalar com o bebezinho no colo.  Por dias e dias, antes dela nascer, olhávamos para aquele bercinho vazio que nem tão cedo seria usado. Como é doloroso ir pra casa sem o filho no colo.

E isso foi só o início do início. Depois fui “cancelando” e reinventando muitas outras expectativas que criei. Por exemplo, de: “ Quando minha filha vai andar ?” para: “Será que minha filha vai andar? ou para: “Será que ela vai sobreviver a mais essa internação ? “ E assim por diante. Os exemplos são infinitos.

Ou seja, provavelmente todas nós tivemos e teremos ainda que anular muitos sonhos.

O sonho, da forma que ele foi idealizado, esse já acabou. Já era. Se foi.

Ao mesmo tempo que me vi destroçada, e tentando catar os pedacinhos de mim mesma, tinha uma bebê para cuidar. Como fazer isso ? E aquele sonho ? Onde foi parar o meu  sonho ?

Sim, é exatamente aí que está o grande “X” da questão. É uma pena que tive que passar por um longo processo para descobrir essa grande sacada:

O sonho não acabou! Ele ainda existe. Só que ele é diferente do que imaginei inicialmente. E isso não quer dizer que ele é pior ou melhor, apenas diferente. Um sonho diferente.

Por amor, eu automaticamente aprendi a descontruir um ideal de sonho e reconstruir outro. Nesse sonho diferente, eu alcanço a cada dia dimensões tão grandes de amor, fé, superação e afeto que jamais tinha imaginado.

Eu modifiquei minhas prioridades, mudei completamente minha visão do mundo e do meu propósito de estar viva. Passei a vibrar a cada dia sem intercorrências e a chorar de emoção a cada nova conquista (por menor que ela fosse).

Portanto, se você está no começo da jornada, meu conselho seria: permita-se descontruir e reconstruir sonhos todos os dias.

Reconstrução de sonhos. Todos os dias. A cada dia. Dia após dia. Depois que a Luísa nasceu tem sido assim por aqui. E sabe o que descobri? Que é maravinhoso ter em nossas mãos esse poder de nos reconstruir continuamente e encontrar a beleza em cada etapa da escalada.

E você? O que tem feito para reconstruir os seus sonhos? Deixe seu comentário ou envie um email para contato@sonhodiferente.com.br.

Autoria : Daniela Figueiredo – Blog um sonho diferente.