Categorias: Experiências, Jóias raras

A alegria que vem das coisas que não sabíamos

Quando eu li o laudo: “atraso importante do crescimento intrauterino”, meu coração gelou. A palavra “importante” soava como se estivesse grifada com marca-texto amarelo daqueles que quase gritam.

Eu sabia que meu bebê estava crescendo abaixo do esperado no final da gestação. E, portanto havia alguma possibilidade dela ter alguma deficiência, ou necessidade especial.

Eu estava aterrorizada. Em pânico. Achava que minha vida ia acabar.

Eu sabia que no mínimo, minha vida mudaria para sempre.

Só não tinha como saber de que forma.

Eu não tinha como saber que quando eu finalmente tivesse um diagnóstico, minha vida não seria destruída. Não seria o fim do mundo. Mas sim, a abertura de um novo mundo que poucos têm a chance de conhecer. Um novo mundo com dimensões de amor antes inimagináveis.

Eu não tinha como saber que estava gerando minha Lulubinha, que gosta de dormir segurando a minha mão. Que adora um carinho. Que fala a língua do “agguum” mais fofa e doce. Que tem um risinho tímido e amoroso, guardado só para os melhores momentos. Que é pequenina do tamanho de um botão, mas que tem uma energia interior gigantesca que reluz até o infinito. Que brinca de rolar até cansar. Que empina o bumbum para alto querendo engatinhar. Enfim, um ser humano como qualquer outro. Encantador e único. Com limitações e habilidades somente suas.

Eu não teria como saber que eu, meu esposo, minha família, seriamos tão fortes, corajosos e acima de tudo: FELIZES.

Eu não teria como saber que, sim, às vezes estamos cansados, mas que na maior parte do tempo, estamos sorrindo. Sorrindo de alguma gracinha nova da Lulubinha, de gratidão do amor que o Rafa têm por ela, ou qualquer outra coisa. Como agora, por exemplo, com o Rafa penteando o cabelinho dela, fazendo um “arrepiado” gigante e todos rindo até doer barriga.

Simples assim. A vida é simples. Somos nós que teimamos em torná-la complicada.

Eu não tinha como saber que não seria sofrido para sempre. Mas que sim, um dia eu seria extremamente grata por ter recebido a benção de ter tido a Lulubinha para me ensinar um novo viver. Um novo viver muito mais florido e colorido.

Eu realmente não tinha como saber.

E sei que vou aprender ainda muito mais. O ciclo da vida há de continuar: Viver, acertar, errar, aprender, aceitar, se surpreender, e ser feliz. Ser feliz AGORA, no tempo presente, pois nosso tempo aqui é curto.

Todas essas coisas que eu não tinha como saber antes, tornaram-se enormes fontes de alegria.

Eureka* : Serendipity ** !

Você pode pesquisar a definição clássica de Serendipity** no google ou ver aqui em no final do post.

De qualquer forma, compartilho com você o que é Serendipity  (ou Serendipidade, em português, se preferir),  nas minhas palavras e no meu viver:

Serendipidade é a alegria que vem das coisas que nem sequer imaginávamos. Das coisas que, antes, não tínhamos como saber. Essa é a alegria mais genuína que existe.

Obrigada, minha Lulubinha, meu amor, por ter me escolhido para ser sua mãe. E por ter me mostrado a enorme alegria que emana das coisas que antes eu não tinha como saber. Ter um filho especial é serendipidade pura.

Se algum dia, algo não sair como você imaginava ou sonhava , acredite : Serendipity !

Algo ainda melhor estará por vir. Tudo tem um propósito, nada é por acaso. Uma grande alegria ainda surgirá do inesperado. Basta ter serenidade para esperar… e acima de tudo: ter olhos sábios para poder saber enxergar onde está essa tal alegria.

Desejo do fundo do meu coração, que sua vida também seja cheia de Serendipity !

Um grande beijo, Daniela.

 * Eureka é uma interjeição que significa “encontrei” ou “descobri”, exclamação que ficou famosa mundialmente por Arquimedes de Siracusa. É normalmente pronunciada por alguém que acaba de encontrar a solução para um problema difícil. Fonte: Wikipedia.

**Serendipity é uma palavra em inglês que significa uma feliz descoberta ao acaso, ou a sorte de encontrar algo precioso onde não estávamos procurando. O termo serendipity foi criado no século XVI pelo escritor inglês Horace Walpole. Fonte: https://www.significados.com.br/serendipity/

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10 dicas sobre o que não dizer (e o que dizer) para mães e pais de crianças especiais

O diagnóstico da Luísa, aos 7 meses de idade, foi bastante duro de receber. Porém, como o processo demorou, neste momento eu já estava um pouco “anestesiada”. O momento mais difícil foi durante uma ultrassonografia de rotina na gravidez. Neste dia, escutei pela primeira vez que “poderia ser algo genético – ou não” e que a “mamãe teria que forte”.

Se eu tivesse que escolher um segundo momento mais difícil, arriscaria dizer que foi a hora de contar para as pessoas queridas. Contar para aqueles que amamos requer preparação e empatia (leia-se: colocar-se no lugar do outro). Requer planejar: Como falar, o quê dizer, e qual o momento certo. Contar para as demais pessoas, como amigos não tão próximos, colegas de trabalho, vizinhos e outros, é diferente. Mas nem por isso menos complicado.

Quase sempre as pessoas que recebem a notícia não sabem o que dizer. Natural. Ninguém ensina isso. Eu também não saberia. Por isso, não julgo nada, nem ninguém. A grande maioria das pessoas tem as melhores das intenções. Recebo todos os comentários com muito amor.

Aliás, eu AMO falar sobre a condição da Luísa, os sentimentos envolvidos e tudo mais. Por isso, me pergunte tudo o que quiser, sempre que quiser. Eu adoro responder. Eu acho que nós, mães de crianças especiais, temos muito para dividir e acabamos tendo um papel educador na sociedade. O que mais quero é que as pessoas entendam a condição da minha filha e de outras crianças. Esse foi um dos motivos de eu ter criado esse blog aqui.

Mas acho importante dividir com vocês um pouco da minha experiência, através de algumas dicas. Dicas sobre o que eu tenho gostado de ouvir, e o que não foi tão legal assim.

Antes de começar, eu tenho algumas ressalvas :

  • Tenho uma dica fundamental, que apelidei carinhosamente de “Dica Master”. Essa vou deixar para quem ler até o final do post, ok ?
  • Se você por acaso já falou alguma das coisas incluídas dentro do “o que não dizer”, por favor, não me entenda mal, nem se sinta culpado (a). O objetivo aqui é ajudar, compartilhar, dividir. Então vamos lá..

5 Dicas do que não dizer para uma mãe ou pai de uma criança especial:

  1. “Ah…, mas você tem o seu outro filho (a) que é lindo e saudável”. [Ter tido o bônus de ter um filho lindo de morrer, me dá agora o direto do ônus de ter uma filha com limitações?]
  2. “Deus só dá esses fardos para quem pode carregar” [a.. Minha filha não é um fardo , ela é um benção. ; b.Porque eu posso carregar e outros não ? ]
  3. “Como pode,né? um filho normalzinho e outro não.. Você teve alguma intercorrência , infecção..? …” [Olha.. eu sei que você está pensando isso, mas não, eu não eu não usei drogas, eu não pintei o cabelo , eu não bebi. Tomei todos os cuidados e  vacinas. Eu não sou Deus, e não tenho poderes de controlar a divisão celular e formação dos cromossomas. Não importa isso, mas no caso da Luísa  não foi causada por nada, nem transmitida por ninguém, não foi Zika, e nem teve fator de risco algum. Mas mesmo que tivesse, que diferença faria ?]
  4.  “Você recebeu uma missão especial”. [Sim, essa concordo em parte, mas não ajuda muito. A missão ainda é bem dura no dia a dia de quem a vive.]
  5. “Segura a onda, porque agora a única opção que você tem é ser forte” [Não é bem assim. Sou forte 99% do tempo. Mas vão existir dias que vou querer chorar debaixo de edredom. Outros nos quais eu vou querer sumir. E não tem nada de errado com isso.]

5 Dicas do que você poderia dizer para uma mãe ou pai de uma criança especial:

  1. Não diga nada, e apenas me dê um sorriso de verdadeira empatia enquanto segura bem forte as minhas mãos ao escutar a minha história.
  2. “Eu imagino que você esteja cansada. Tente relaxar um pouco. “ Quer eu traga um cappuccino quentinho “ ou talvez um bolinho de cenoura com chocolate ? ou “ Olha, eu trouxe esse (livrinho de pensamentos positivos), (de orações) ,um (anjinho protetor), etc. , para ajudar a trazer conforto e fé para vocês.
  3. Diga que se lembrou de mim e da minha filha no lugar x, y, z que visitou, que orou por nós, que mandou pensamentos positivos…
  4. Ao invés de dizer “pode contar comigo”, diga: “como posso te ajudar hoje?” Quer que eu (busque seu filho mais velho na escola), (leve para passear), (compre algo no mercado) , etc, enquanto você está no hospital ?
  5.  Ou não diga, nem faça nada disso. E como diz a música: “Simplismente me abrace…”  

E conforme prometido: abaixo compartilho a dica Master:

Dica Master: Por alguns segundos, imagine-se no nosso lugar, vista os nossos sapatos, imagine-se vivendo a nossa vida, e pense como soaria receber aquilo que você está prestes a dizer. Certamente, seu coração vai te dizer em qual direção seguir

E você, gostou das dicas?  Comente aqui !

Se você é papai ou  mamãe ou papai especial, tem alguma outra dica para compartilhar? Comente aqui também !

Grande beijo, Daniela.

Categorias: Experiências, Gravidez

A história da Lulubinha – Parte 1: A Descoberta Inusitada

Não era um dia comum. Minha menstruação estava atrasada um dia apenas e eu tinha um motivo de esperança. Marcamos um jantar no shopping. Fiquei esperando o André em um sofá, sem nada para fazer. Lembrei que no shopping tinha uma farmácia. Num impulso, desci a escada rolante e entrei : ”Quero um teste de gravidez, por favor”. Comprei. Fiquei olhando para sacola , e ela olhando para mim. Eu pensava sozinha: “Não vai dar nada mesmo…lembra como demorou da outra vez para vir o Rafael?” ; “ Espera atrasar mais um dia, para ter certeza do resultado”; “ Melhor fazer logo, ver logo o negativo, e pronto !  acaba logo de vez com essa ansiedade”.

No meio desse turbilhão, uma força estranha me empurrou para dentro do banheiro. Isso mesmo, banheiro do shopping. Escolhi uma portinha de cabine aleatória. Afinal de contas, eu ia acabar com aquilo em segundos, pois ia dar negativo com certeza. Minha ansiedade ia baixar, eu poderia voltar a minha vida normal. Simples e rápido. Li as instruções cuidadosamente (como se já não soubesse de o passo a passo…). Fiz o que tinha que fazer e fiquei lá sentada em cima do vaso. Esperando. E tapando o buraco do resultado para não me antecipar. Tinha certeza que ia dar uma linha só, eu ia jogar aquilo no lixo, higienizar toda meleca que tinha feito, e ir jantar normalmente. Jantarzinho delícia, com um vinho top, e super merecido, após uma dura semana de trabalho. Afinal de contas, era sexta-feira. Esse era o plano original.

Após a espera sentada no vaso sanitário do shopping, decidi olhar para a linha única que ia aparecer. Ela estava lá sim. Mas … Opssss, ela não estava sozinha, tinha uma outra linha ao seu lado, bem forte e bem azul. Eu podia quase ouvir a segunda linha gritando para mim : “Surpresaaaa !!!! Olá, muito prazer, eu sou a segunda linha. E vim bem fortona assim para não deixar você com dúvida”.

Meu coração acelerou e eu queria gritar bem alto. Mas eu estava dentro do banheiro….do shopping !!! Cheio de gente, plena sexta feita a noite. Contive meu grito, mas não o choro. Chorava lágrimas mistas de alegria, surpresa e excitação. Meu corpo todo tremia de pura adrenalina. Não sei quantos minutos fiquei ali. Provavelmente o suficiente para secar as lágrimas e sair de lá tentando disfarçar que nada tinha acontecido. Um disfarce impossível, diga-se de passagem.

Depois do lance todo da higienização, respirar fundo umas vinte vezes, lavar o rosto, e todas essas coisas básicas para recuperação pós-susto, era hora de sair do banheiro. André já tinha chegado. Tinha guardado a tira do exame enrolada com voltas múltiplas em papel higiênico. Cuidadosamente colocada dentro da caixa do teste. Para servir de prova. Como quem comete algo duvidoso, e que deve provar sua inocência. Afinal de contas, tinha certeza que André ia falar que eu estava louca, que um teste assim dentro do banheiro do shopping deve estar errado.

Sai do banheiro com um sorriso no rosto e ainda com as mãos tremendo. Olhei para meu marido e vi de relance flashes do futuro em micro segundos, com nosso sonhado segundo filho correndo e brincando com o irmão. Pensei como amava aquele homem ali na minha frente. Como amava a minha vida, a família e tudo mais que estávamos construindo.

Tentei agir naturalmente, mas você já sabe, foi impossível. Peguei André pela mão e ficamos andando pelo shopping sem rumo, queria achar um banco para sentar. “Preciso te contar uma coisa importante”. Parecia uma caminhada sem fim até achar um banco vazio. Mas achamos e sentamos. Não me lembro exatamente o que falei. Só lembro que não fiquei de rodeios. E complementei: eu acabei de saber. Bem agora, dentro do banheiro daqui do shopping.

Ele ficou espantado. “Como assim você fez um teste de gravidez no banheiro do shopping?” ; “Sim, eu fiz”; “Como isso é possível? onde consegui o teste? ; “ Eu comprei na farmácia e fiz, ué…simples assim “. E eu ria de felicidade e nervoso ao mesmo tempo. Como eu já imaginava, ele disse: “Não, deve estar errado…. você não deve ter lido as instruções do teste direito”. “Eu li direito, e a linha é bem forte e não deixa nenhuma dúvida”. Ele: “Não, você tinha que ter feito em casa com calma, com certeza está errado.”.

Eu não o culpo por essa reação. Era totalmente previsível. Afinal, Rafael tinha demorado dois agoniantes longos anos para ser fecundado, por que agora haveria de ser tão rápido assim ? A conversa continuou, e eu disse: “ guardei a fita de prova para mostrar para você, olha aqui”. Ele olhou e sorriu nervoso. “Cadê as instruções, você seguiu direito?” “Sim, fiz tudo certo”. Olha aí.

Ele precisou de uns minutos para digerir a informação. Quando finalmente caiu a ficha, nos abraçamos e choramos de alegria. “E agora, disse ele? .”E agora o que? Vamos ter outro filho muito amado e esperado” , e ele disse “Sim…” . Mas a gente ainda vai jantar no restaurante? Vamos, ué…

A cabeça só girava pensando no futuro, se seria menina, se seria menino, como eu ia contar pra minha família, pro irmãozinho…. Enquanto viajava nesses pensamentos, olhava Rafael brincar na piscina de bolas do shopping com o pai. (ele tinha chegado com meus sogros). Em seguida, todos jantamos e já contamos de cara para os pais do André.

Infelizmente, para mim, nada de vinho. Tive que ficar com essa emoção no peito e de cara limpa. Brindei feliz com o meu copo de água. Afinal de contas, meu segundo filho(a) estava chegando….

Secretamente, eu confesso que pensava : como eu queria que fosse uma menina…. queira muito. Mas me dizia ao mesmo tempo: “se for outro menino, tudo bem também”. Como eu amo ser mãe de menino !

(aguarde pela continuação da história nos próximos posts).

Autoria: Daniela Figueiredo